PROJETO ENSINA EMPREENDEDORISMO E SUSTENTABILIDADE AOS ALUNOS DA REDE PÚBLICA

A atividade de um professor abrange mais do que lecionar, pois seu trabalho vai além do currículo conteudista e tem papel fundamental na formação de cidadãos conscientes.

O professor Fabiano Santos Silva abraçou esse compromisso com um projeto, iniciado há dois anos, em uma escola  da rede pública, no distrito de Arraial d’Ajuda, Porto Seguro, que tem ensinado aos alunos como empreender de maneira sustentável.

Batizado de “Espuma do Mar” o projeto realizado no Colégio Estadual Arraial d’Ajuda (CEAA) já contou com a participação de 80 estudantes que aprenderam a desenvolver produtos naturais como sabonetes, por exemplo.

“O projeto visa ensinar a desenvolver produtos naturais destinados à rede hoteleira de Arraial d’Ajuda e região, uma vez que um dos cursos ofertados na escola é o Técnico em Hospedagem”, informa o professor.

 

Os alunos puderam apresentar o resultado do trabalho desenvolvido, em dezembro de 2025, durante o Encontro Estudantil da Bahia, realizado na Arena Fonte Nova, em Salvador.

Destaque a sessão “Protagonostas da Química” de março, o profesor Fabiano é licenciado em Química pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), Campus de Porto Seguro. É também pós-graduado em Ciência e Tecnologia Ambiental pelo IFBA.

Atualmente, Fabiano Santos Silva é aluno do Programa de Mestrado Profissional em Química em Rede Nacional (PROFQUI) pela Universidade Estadual da Bahia (UESB),  no Campus de Jequié.

O professor explica que o projeto “Espuma do Mar” foi iniciado partir da ideia da professora e coordenadora do ensino técnico, Girlane Nery, para desenvolver produtos naturais destinados à rede hoteleira de Arraial d’Ajuda e região, uma vez que um dos cursos ofertados na escola é o Técnico em Hospedagem.

 

“Iniciei o projeto com a produção de sabonete artesanais sustentáveis feitos de capim-limão, cultivado na escola”.

 

O professor  declara que, em um primeiro momento, o projeto foi realizado com duas turmas, uma da primeira série do curso Técnico em Hospedagem, no qual ele aproveitou o Projeto Feira de Ciências e montou uma “mini empresa”. Depois disso, foram formados pequenos grupos de alunos para desenvolver diferentes atividades, como a produção dos sabonetes, sacolas sustentáveis, logomarca, portifólio, pesquisa teórica sobre a produção de sabonetes artesanais, análises físico-química, recipientes reutilizáveis, e plano de negócio.

 

A outra turma, da segunda série do curso Técnico em Recursos Humanos, ficou responsável pelo plantio, colheita, produção de um destilador artesanal para extração do óleo essencial, e produção de corante artesanal com o bagaço do capim-limão.

 

Ele recorda que o projeto foi inscrito na etapa regional da Feira de Ciências da Bahia (FECIBA), em 2024, sendo aprovado e representado pelas alunas Amanda Santos e Lasla Cruz. Na ocasião,  foi avaliado e aprovado para a etapa estadual.

 

No segundo ano de projeto, o professor decidiu reduzir o número de participantes para facilar a orientação.

 

Ainda no segundo ano de projeto, os estudantes produziram um sabonete esfoliante de folha de goiabeira, espécide de árvore presente na escola, cultivadas por um servidor.

 

O projeto foi aprovado novamente para as etapas regionais e estaduais. A turma foi representada pelas alunas Amanda Santos, Lasla Cruz e Sara Costa.

O professor relata que foi desenvolvido um protótipo da embalagem sustentável. Além disso, os estantes também realizaram uma pesquisa de campo para avaliar o impacto gerado pelo uso dos produtos de higiene pessoal na rede hoteleira do distrito de Arraial d’Ajuda. A pesquisa levou em conta também se hotéis e pousadas contavam com práticas sustentáveis para tratar os resíduos plásticos gerados".

 

“A partir daí, chegamos à conclusão que só com as embalagens de sabonetes chegavam a cerca de 5 toneladas por ano”, informa.

 

Neste terceiro ano de projeto, os estudantes estão envolvidos em uma pesquisa para desenvolver um tipo plástico biodegradável. Também buscam formas de aumentar a produção e a variar a produção de sabonetes artesanais sustentáveis. A meta é comercializar a produção para  comunidade local e para a rede hoteleira da região, além de desenvolver outros produtos como aromatizantes, velas, etc.

 

“Com o lucro obtido prentendemos adqurir equipamentos para potencializar a produção e o processo de análise. Queremos também, participar de eventos maiores com esse nosso projeto e apresentá-lo para o maior número de pessoas possível”.

 

Segundo o professor, apesar das dificuldasdes que surjem, é muito gratificante ver os alunos participando de eventos, quando é possível, pois isso contribui para suas formações acadêmicas e como cidadãos.

 

“No ano passado, tivemos o projeto aprovados em outras eventos, mas não pudemos ir a todos por falta de recursos financeiros. Neste ano vamos tentar utilizar recursos provenientes da venda do que é produzido”.

 

O professor destaca que, além da produção e comercialização, o objetivo geral do projeto “Espuma do Mar” é tornar a escola uma mini fábrica/empresa.

 

“Assim, os alunos aprendem durante o processo, tanto sobre a química, como o desenvolvimento de produtos naturais, empreendedorismo, sustentabilidade, economia circular forma interdisciplinar.

 

Entrevista

  1.  Teve alguma inspiração para se tornar professor de Química? Alguém foi sua referência?

Após o término do ensino médio, eu ingressei no curso Técnico em Alimentos no IFBA Campus de Porto Seguro. Ali,  me identifiquei muito com as disciplinas de Química. No ano seguinte, teve início o curso Licenciatura em Química, também no IFBA. Prestei o vestibular e passei. Deixei o curso técnico pra me dedicar a Licenciatura. Tive muitos professores bons no IFBA que, com certeza, contribuíram muito para a minha formação.

 

  1. Quais os desafios de ser um professor de Química em uma cidade do interior? Acredita que exista diferenças em relação aos docentes da capital?

O fato de ser uma região interiorana não tem muita influência no ensino. No caso específico de Arraial d’Ajuda, creio que interfere mais o fato de ser uma cidade turística litorânea. O turismo é uma das nossas principais fontes de renda e isso faz com que a cultura local seja diferente de uma cidade não turística, já que alguns trabalhos voltados a esse segmento geram uma renda acima da média nacional e não exigem formação para sua atuação. Uma parte dos alunos começa a trabalhar ainda no ensino médio, isso faz com que muitos dêem mais valor ao trabalho que aos estudos. Eu entendo suas escolhas. A questão financeira familiar influencia muito nisso, mas nada que seja diferente de uma cidade turística litorânea de uma capital. É mais uma questão social do que regional e, infelizmente, isso também contribui para a evasão escolar.

  1. Quantos estudantes foram capacitados pelo projeto “Espuma do Mar”?

Não é bem uma capacitação, mas uma oportunidade para o estudante aprimorar o seu desenvolvimento científico através desse projeto. Pois ele engloba todas as etapas de uma pesquisa, desde o pré-projeto, passando pela pesquisa teórica, pesquisa prática, desenvolvimento do produto, expondo a pesquisa e o produto em feiras de ciência regionais. Isso faz com que o estudante tenha uma visão mais ampliada sobre o que é “fazer ciência” e ser um cientista. Cerca de 80 alunos já participaram do projeto.

  1. Como é a atuação dos ex-alunos após a conclusão do curso? Há informações sobre se costumam atuar com empreendedorismo ou na indústria?

Não temos muitas informações sobre os ex-alunos após encerrar seu ciclo no ensino médio, a não ser que eles mesmos nos informem. Foi o que aconteceu com uma ex-aluna, Amanda Victória, que decidiu ser uma cientista após participar do projeto “Espuma do Mar”. Ela ingressou, neste ano, no curso de Biomedicina e me agradeceu por ter contribuído para a sua decisão. Mesmo sabendo que é o meu trabalho, considero momentos assim muito recompensadores. Fiquei muito feliz pela conquista dela.

  1. Qual é a sua avaliação sobre discussões em torno da importância da sustentabilidade no ambiente estudantil da rede pública no momento atual?

A sustentabilidade é um dos assuntos mais urgentes que temos. Mais do que apenas ensinar sobre o aquecimento global ou a poluição, precisamos levar o estudante a perceber que cuidar do planeta é, na verdade, cuidar de nós mesmos. Essa consciência precisa fazer parte do cotidiano do estudante, pois a preservação ambiental garante a sua própria qualidade de vida e de toda a sua comunidade. É necessário mostrar que, na rede pública,  o aluno tem direito a um futuro saudável e que ele pode ser o protagonista dessa mudança no lugar onde vive.