DA ALDEIA À CIÊNCIA: CONHEÇA A TRAJETÓRIA DO QUÍMICO INDÍGENA HEMERSON PATAXÓ HÃ-HÃ-HÃE

Para encerrar o mês da visibilidade, resistência e celebração da diversidade das culturas originárias, conhecido como o “Abril Indígena”, a coluna “Protagonistas da Química” apresenta um pouco da trajetória de Hemerson Dantas dos Santos ou Hemerson Pataxó Hã-hã-hãe, como o químico também é conhecido.

Graduado pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Hemerson foi o primeiro estudante indígena a conquistar o título de mestre, em 2019, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em um curso das Ciências Exatas.

Sempre em busca de aprimoramento para seus conhecimentos, recentemente, ele concluiu o doutorado no Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Além disso, Hemerson é responsável por um estudo que catalogou 175 plantas medicinais utilizadas pelo povo Pataxó Hã-hã-hãe, do sul da Bahia, etnia a qual ele pertence, publicado no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, periódico científico do Reino Unido.

Atualmente, ele ensina Química em um curso preparatório para o Enem, voltado para mulheres indígenas, chamado Jenipapo Urucum e desenvolvido pela Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí).

Leia a seguir a entrevista completa com Hemerson Pataxó Hã-hã-hãe:

CRQ 7: Fale um pouco da sua aldeia Pataxó Hã-hã-hãe, no Sul da Bahia. Como é a rotina de quem mora ali e quais a carências existentes? 

Hemerson Pataxó: A Terra indígena Caramuru-Paraguassu possui uma extensão com mais de 45 mil hectares e faz limites com alguns municípios, entre eles: Pau Brasil, Camacan, Itajú do Colônia e Potiraguá. Na aldeia, o povo Pataxó Hãhãhãe, vive da agricultura familiar, pecuária e trabalhos formais nas áreas da saúde, educação e cargos públicos nos municípios vizinhos. Dentro do território as aldeias estão localizadas distantes umas das outras. Então, indígenas de diferentes aldeias se encontram com pouca frequência, a exemplos das feiras comerciais que ocorrem nos municípios vizinhos e em reuniões ou encontros em colégios ou cabanas no território. O dia a dia costuma ser comum e tranquilo com os sons dos pássaros e das folhas das árvores. Os principais desafios no território costumam ser a falta de água, além do processo de resgate da cultura, a exemplo da língua e da restauração do meio ambiente com ações de reflorestamento.

CRQ 7: Por que escolheu entrar para a graduação em Química? Teve inspiração em alguém?

HP: A escolha pela graduação em Química partiu da minha aptidão em ser curioso para saber como as coisas funcionam na natureza. Além disso, tive a orientação de meus professores no ensino básico, que concluí dentro do meu próprio território, e a oportunidade de aprender com professores também indígenas.

CRQ 7: Você foi, em 2019, o primeiro estudante indígena a obter o título de mestre pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em um curso das Ciências Exatas. O que essa conquista significou para você?

HP: Foi algo surpreendente, pois existem pouquíssimos parentes indígenas ocupando espaços nos cursos voltados para as ciências exatas. Embora, na graduação foi notório a falta da presença de indígenas na universidade. Lembro que conheci, no máximo, dois ou três indígenas na universidade durante a graduação que concluí na UESC. Na UFBA, já no período do mestrado, notei que havia a presença de muito mais parentes indígenas. Mesmo assim, quase não há indígenas nos cursos de exatas. Entendo que os desafios para a compreensão dos assuntos, sejam muito maiores, pois as bases de ensino ainda são fracas e as componentes disciplinares são desafiadores. Com tudo, senti que estava abrindo novas portas e adquirindo uma importante responsabilidade com meu feito.

CRQ 7: Tem conhecimento se, de lá para cá, o número de estudantes indígenas a obter mestrado aumentou?

HP: Sim, hoje noto que há muito mais indígenas nas universidades e adquirindo novos títulos. Entretanto, nas ciências exatas, a presença indígena ainda é pequena. Acredito que num futuro médio, poderemos ver mais indígenas nesses espaços. Ainda preciso fazer mais “discípulos”.

CRQ 7: Taquairi Pataxó, reconhecida liderança indígena, disse certa vez que a formação universitária para os integrantes dos povos originários é muito tardia. Você também tem essa percepção?

HP: Certamente compartilho dessa afirmação. No meu processo de graduação, eu não conhecia e não fazia ideia da dinâmica sobre como seria fazer um curso superior. Então, tudo o que eu precisava saber, eu somente descobria quando “dava de cara” com a situação. Isso sempre trazia certa aflição, pois prejudicava os meus prazos dentro do curso. Embora eu tenha conseguido aprender a lidar com tudo isso, não tenho dúvidas que muitos parentes indígenas desistem de cursos por não conseguirem resolver esses impasses, causados pela pouca experiência sobre o que de fato é estar na universidade. Além disso, muitos estudantes indígenas vivem longe das cidades que possuem universidade. Então, ter que se afastar da aldeia e de seus parentes para viver em um ambiente completamente diferente do nativo é um grande desafio para muitos indígenas.

CRQ 7: Fale um pouco do estudo realizado por você e publicado no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine.

HP: O artigo intitulado “Participatory Ethnobotany in indigenous health: study conducted by a Pataxó Hãhãhãi ethnobotanist among his people, Brazil” é fruto de um lindo projeto de pesquisa de doutorado que desenvolvi na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Esse trabalho foi especial, pois me voltei para mais próximo do meu povo para dedicar minhas energias e conhecimentos a fim de desenvolver algo que pudesse levar a história do povo Pataxó Hãhãhãe. Foi desafiador, particularmente por se tratar de uma metodologia deferente da minha formação em Química. Mas foi necessário para que eu pudesse contemplar diretamente minha comunidade indígena.

CRQ 7: E a experiência do doutorado no Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), como foi?

HP: Foi sem dúvidas uma experiência única, principalmente, pelo contexto em que eu ingressei no curso, pois tudo ocorreu no início da pandemia do Covid-19. Então fiquei impossibilitado de viver a universidade presencialmente e tive que fazer todas as disciplinas a distância. Por um lado, isso ajudou no campo financeiro, pois eu tinha pouco dinheiro, e o fato de não ter os gastos com transportes, hospedagem e alimentação em outro estado, ajudou a superar esse desafio. Mas, por outro lado, não era natural processar que eu estava em um curso, em ambiente diferente de tudo o que eu havia aprendido antes, quando era presencial. Como sempre, eu não mudei minha estratégia, busquei fortalecer ainda mais meus pontos fortes e buscar as possíveis soluções para superar todos os desafios. Quanto ao Programa de Pós-Graduação da Biologia Química nesse instituto, este foi acolhedor, e multidisciplinar. Durante todo o processo do curso, me deparei com professores, que apoiaram e somaram em muitos detalhes desse trabalho.

CRQ 7: Os conhecimentos indígenas são valorizados no meio acadêmico ou você percebe algum tipo de reservar em aceitá-los?

HP: A aceitação dos conhecimentos indígenas nas universidades ainda é um desafio. Nossa presença não é tão comum e, portanto, ainda não é algo natural para a comunidade acadêmica se deparar com indígenas fora do ambiente nativo. Eu acredito que essa visão tem se reduzido com a presença indígena, principalmente, nas redes sociais. Mas, muita gente olha com estranheza um indígena com celular, computador, automóvel, etc. Porém, aos poucos a sociedade não indígena, vai aprendendo que o indígena também é gente e, portanto, capaz de todos as habilidades que uma pessoa humana pode ter.

CRQ 7: Fale sobre a atividade que está exercendo atualmente, preparando mulheres indígenas para o Enem.

HP: Atualmente, eu sou responsável pela componente curricular de Química em um projeto de curso preparatório para o Enem, voltado para mulheres indígenas. O projeto Jenipapo Urucum desenvolvido pela Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí) é uma importante iniciativa para disponibilizar para esse público. O projeto conta com professores que possuem formação acadêmica para instruir e alavancar o conhecimento dessas indígenas brasileira e orientá-las sobre como lidar com os desafios encontrados na universidade. Considero gratificante poder compartilhar o conhecimento que adquiri e ter a oportunidade de aprender com parentes indígenas. Sei que, de alguma forma, estou contribuindo com o crescimento de cada um.